11/01/10

A evolução do conhecimento das plantas

O homem teve sempre de tirar partido dos recursos naturais para a sua sobrevivência e bem-estar na Terra.
As plantas proporcionaram os mais diversos produtos indispensáveis à vida do homem em todas as épocas. Foram e são a origem de alimentos, óleos, madeiras, resinas, fibras, corantes, drogas, combustíveis, etc.
Neste enumerar de utilidades destacamos as que revelaram, e continuam a revelar, aptidão para minorar as doenças, pois apresentam propriedades curativas. São as plantas medicinais.
O seu uso baseia-se nas práticas da medicina tradicional, variando de país para país, região para região, influenciado ao longo do tempo por diversos factores, como a cultura, história, atitudes pessoais e filosóficas.
Nos nossos dias a procura de plantas com aquelas características mantém-se em todas as partes do mundo, quer em países em desenvolvimento, quer em países desenvolvidos.
A Organização Mundial de Saúde estima que, nos nossos dias, 80% da população mundial depende, ou confia, nas plantas medicinais. Assim, esta organização estimula programas de utilização, que correspondam a práticas seguras.
As populações dos países em desenvolvimento usam-nas, maioritariamente, por tradição, confiança, desconhecimento e falta de poder económico para usufruir da
medicina, dita ocidental.
Nos países desenvolvidos, onde o uso de medicamentos obtidos por síntese química das substâncias activas é hoje prática corrente, as plantas medicinais são utilizadas como medicina complementar, (por exemplo, no tratamento das doenças crónicas, devido aos efeitos adversos daqueles) e na pesquisa de substâncias activas.
As plantas continuam a ser usadas em farmacologia, estando na base de muitos
medicamentos actuais. Podem, ainda, ser de grande interesse noutras utilizações, como
por exemplo, indicadores de diagnóstico ou bioquímico.
Portugal, pela sua localização geográfica, não só acompanhou a evolução do uso da medicina tradicional no mundo ocidental, como contribuiu decisivamente para o seu
desenvolvimento, mercê do conhecimento e estudo do meio tropical trazido dos descobrimentos.
Recuando no tempo, poderemos dizer que se encontra memória documentada sobre plantas medicinais e suas utilizações nos escritos das civilizações do Antigo Testamento.
No entanto, só na Antiguidade Clássica foram adquiridas as bases científiconaturais
da medicina ocidental.
Na Civilização Grega destaca-se Hipócrates (460-370 a.C.), o médico mais ilustre desta época denominado “pai da medicina”. Nas suas receitas entravam 250 a 263 plantas, das quais se referem a pimenta (Piper nigrum L.) e cardamomo [Elettaria
cardamomum (L.) Maton] como exemplo de plantas tropicais já usadas.
A Civilização Romana adoptou a medicina grega, na qual foram incluindo novas drogas de origem vegetal provenientes das regiões que iam integrando o seu império. Neste período salientam-se dois médicos, Dioscórides (40-90 d.C.) e Galeno (131-200 d.C.).
Dioscórides foi autor da primeira descrição sistemática de 580 plantas, suas
4600 utilizações e formas de actuação em De Matéria Medica (± 65 d.C.). Os conhecimentos nele contidos foram de importância decisiva para a medicina europeia até aos séculos XVII-XVIII. Nesta obra as plantas estão ordenadas de uma forma
utilitária. Facto interessante também é a menção sobre a maneira como se devem efectuar as colheitas e conservar as drogas, sendo referido que se deverá mencionar
sempre a sua proveniência. Este livro teve grande importância na terapêutica, tendo sido copiado muitas vezes e traduzido para latim, siríaco e arábico. Nestas cópias e traduções foram cometidas muitas imperfeições e erros.
Galeno foi um seguidor de Hipócrates e Dioscórides. Na sua obra Sobre o Método Terapêutico admitiu que os remédios não actuavam isoladamente e necessitavam de indicação para administração correcta. Usou medicamentos compostos e criou misturas que ficaram conhecidas como “misturas galénicas”, que foram usadas durante vários séculos.
A Idade Média inicia-se em 476 d.C. com a Queda do Império Romano do Ocidente.
A desestruturação do Império Romano conduziu à perda do conhecimento em
simultâneo do grego e latim para os mais eruditos, ficando apenas a língua latina como elo de união entre os povos. Este facto levou a Europa ocidental à perda do acesso aos tratados da antiguidade clássica, escritos em grego, restando apenas versões truncadas, por vezes cheias de erros, traduzidas para latim.
A sociedade tornou-se estática, sendo o tema religioso o centro de reflexão. A vida cultural concentrou-se nos mosteiros. Nestas comunidades, os monges copiavam textos e faziam compilações, muitas vezes deturpadas, da informação existente, introduzindo-se, como novidade, ilustrações nos manuscritos, todos escritos em latim.
Entretanto, havia continuidade no Império Romano do Oriente, constituído por diversos povos, onde se salientavam os gregos, persas, egípcios e outros, que continuaram a ter acesso às fontes de conhecimento originais. Foi, pois, naturalmente, que a cultura clássica passou de Bizâncio ao mundo muçulmano (Alexandria).
Na Civilização Árabe, desenvolveu-se um notável movimento científico no qual as obras gregas foram traduzidas e anotadas.
O médico árabe que veio a ter maior influência foi Avicena (980-1037). O seu Cânon de Medicina é uma compilação anotada dos livros de Galeno, que eram sem sistematização e muito confusos.
A obra de Avicena é metódica e coerente e foi seguida pelas medicinas bizantina, árabe, judaica e ocidental. Foi traduzida para latim no século XII e estudada
nas universidades europeias até ao século XVII.
A Expansão Árabe até à península ibérica, no século VIII, introduziu na Europa ocidental conhecimentos médicos, comerciantes de drogas, especieiros (preparadores de
medicamentos), boticários (comerciantes com as suas lojas, as boticas) e físicos (»médicos).
Logicamente percebemos que os mentores da medicina europeia medieval foram Hipócrates, Dioscórides, Galeno e Avicena, em textos recopiados, anotados e onde os
fármacos se encontravam dispostos por ordem alfabética e com a especificação das suas
propriedades e usos. Contavam-se mais de 4000 remédios, simples ou compostos, entre
os quais predominavam partes de plantas. Eram referidas especiarias e drogas orientais
para vários fins medicinais, como o anacardo (Semecarpus anacardium L. f.), a canela (Cinnamomum verum J. Presl.), a cânfora [Cinnamomum camphora (L.) J. Presl.], o
cravo [Syzygium aromaticum (L.) Merr. & Perr.], as cubebas (Piper cubeba L. f.), a
galanga [Alpinia galanga (L.) Sw.], o gengibre (Zingiber officinale Roscoe), a noz
moscada (Myristica fragrans Houtt.), a pimenta (Piper nigrum L.), o ruibarbo (Rheum
officinale Baill.), o sândalo (Santalum album L.), o tamarindo (Tamarindus indica L.) e a zedoária [Curcuma zedoaria (Christm.) Roscoe].
O Renascimento desenvolveu-se na Europa, a partir do século XIV, tendo
grandes reflexos nas ciências.
Verificando-se que os livros existentes estavam muito alterados pelas sucessivas
cópias uns dos outros registou-se um movimento de aproximação aos valores e fontes
da Antiguidade Clássica. Efectuaram-se novas traduções e edições dos livros clássicos, a partir directamente dos originais. A invenção da imprensa por Gutenberg, ± 1436, contribuiu para a sua rápida difusão e divulgação.
A obra de Dioscórides foi impressa em 1478 e teve várias edições no séc. XVI,
em latim e em grego, algumas comentadas e com adições.
Nesta época distinguiu-se o português João Rodrigues de Castelo Branco, de nome latino Amatus Lusitanicus (1511-1568), que cursou medicina em Salamanca.
Publicou em Veneza uma tradução comentada da obra de Dioscórides, In Dioscoridis
Anazarbei de materia medica libros e narrationes eruditissimae (1553), que o celebrizou.
As obras de Galeno, em latim e grego, foram objecto de várias edições a partir de 1520.
Como já se referiu, os descobrimentos marítimos de Portugal, ocorridos nos
séculos XV-XVI, permitiram esclarecer conceitos sobre plantas medicinais orientais,
relações entre drogas orientais e as plantas que as produziam e reconhecer que as novas terras eram detentoras de grande número de plantas até então desconhecidas dos
europeus.



"O saber português dos trópicos na evolução do conhecimento das plantas
medicinais" de Maria Cândida Liberato
Instituto de Investigação Científica Tropical
6 de Maio de 2008

Sem comentários:

Enviar um comentário